Lidar com as finanças em momentos mais delicados da economia é um desafio para muita gente. A renda corroída pela inflação não está acompanhando o aumento dos preços, o que dificulta muitas vezes manter as contas em dia. Apenas um dado para ilustrar essa situação: mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, conforme aponta a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Em situações como essa, a primeira reação costuma ser tentar resolver os problemas – como uma despesa inesperada com saúde, por exemplo – com rapidez, acessando os recursos de fácil acesso em um aplicativo, como o cheque especial. Apesar de estar disponível para ser usado a qualquer momento, ele pode transmitir a sensação de ser um “alongamento” do próprio salário. Mas recorrer a essa conveniência pode colocar em risco a sua saúde financeira.
Por que o cheque especial custa tão caro?
O cheque especial é uma linha de crédito pré-aprovada vinculada diretamente à conta corrente de pessoas físicas ou jurídicas. Quando o saldo disponível em conta chega a zero e uma nova transação é realizada – como um Pix, pagamento de boleto ou débito automático -, o valor é retirado do limite.
Por não exigir garantias, ter renovação diária e estar disponível sem uma nova análise de risco a cada uso, essa modalidade carrega uma das cobranças mais elevadas do sistema financeiro.
Juros e tributos podem prejudicar o controle dos gastos
O cheque especial costuma envolver taxas significativas. Apesar de contar com juros teto de 8% ao mês, estabelecidos pelo Banco Central, sua taxa média anual é alta, na faixa de 140% ao ano, sendo uma das linhas de crédito mais caras. Os juros do rotativo do cartão são ainda mais altos, acima de 400% ao ano.
Outro aspecto que não observamos na hora de entrar no negativo é a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide desde o primeiro dia de utilização do saldo negativo, elevando o Custo Efetivo Total (CET) da operação. Essa informação costuma aparecer em letras miúdas, o que faz muita gente não prestar atenção nisso.
O risco de normalizar o uso do cheque especial
Com a dificuldade de pagar as contas no fim do mês, usar o cheque especial como saída para saldar esses compromissos se tornou algo normalizado. Ou seja, mês a mês ele acaba fazendo parte da rotina financeira.
Viver constantemente usando o limite gera grandes riscos para a saúde financeira. A incidência diária de juros compostos pode fazer com que a dívida tome proporções gigantescas em muito pouco tempo.
Nessa situação, o orçamento futuro fica cada vez mais comprometido. O salário entra e é consumido imediatamente para amortizar o saldo devedor e os encargos do mês anterior. E o ciclo se repete a cada mês.
Quando usar o cheque especial?
Apesar de ser uma linha de crédito com grande impacto no orçamento, o cheque especial não deve ser encarado como um vilão absoluto. Ele pode ajudar a resolver emergências de curtíssimo prazo.
Alguns exemplos de como ele pode ser usado sem causar dificuldades:
- Pequenos desencontros de caixa: o pagamento de um boleto importante que vence na sexta-feira antes do recebimento do salário na segunda-feira.
- Aproveitamento de dias isentos: alguns bancos costumam dar um prazo de cinco a dez dias de uso livres de juros. Mas atenção: o IOF não deixa de ser cobrado no período de isenção.
- Emergências médicas ou reparos urgentes: um exame que precisa ser realizado com urgência ou um encanamento que se rompe quando não há reserva disponível no momento.
Dica importante: apenas opte pelo cheque especial se você souber a data exata e o valor correto que entrará na conta para cobrir o limite nos dias seguintes.
Quando evitar o uso do cheque especial?
- Complementar a renda mensal: pagar despesas recorrentes como supermercado, aluguel, combustível, conta de luz e celular.
- Fazer compras supérfluas ou parcelamento informal: adquirir itens que poderiam ser planejados ou financiados por modalidades mais baratas. Hoje é possível, por exemplo, fazer o pagamento via Pix Parcelado.
- Financiar despesas de longo prazo: se você precisa de semanas ou meses para pagar uma dívida, essa linha engolirá seu orçamento.
Estratégias para manter a saúde financeira
Se você entrou no cheque especial e a dívida já acumula semanas de atraso, a recomendação é substituir a dívida por outra com taxa de juros menor, como o empréstimo consignado, para quitar o saldo devedor e assumir parcelas fixas que caibam no orçamento.
Se esse não for o seu caso, confira as dicas para evitá-lo:
- Desconecte o limite do saldo real: configure o aplicativo do seu banco para não somar o limite do cheque especial ao seu valor real disponível.
- Fique atento às tarifas de limite: lembre-se de que, conforme regras do Banco Central, os bancos podem cobrar tarifa sobre limites disponibilizados que ultrapassem R$ 500, mesmo se você não utilizar o valor.
- Solicite a redução do limite contratado: se o valor do cheque especial for excessivo, peça a redução à instituição financeira para evitar gastos por impulso.
- Construa uma reserva de emergência: a melhor proteção contra o cheque especial é manter um valor equivalente a 3 a 6 meses do seu custo de vida alocado em uma aplicação com liquidez diária.