O avanço das finanças embarcadas por meio do Banking as a Service (BaaS) vem transformando o serviço financeiro brasileiro. Tal evolução tecnológica permitiu que empresas de qualquer setor escalassem serviços financeiros sem a necessidade de construir pilhas regulatórias ou sistemas bancários proprietários do zero. Para os provedores de infraestrutura, o foco atual reside na abstração da complexidade bancária por meio de APIs robustas.
“Estamos bastante entusiasmados com a infraestrutura invisível, temos centenas de casos que ajudamos a construir”, assinalou Marcelo França, fundador e CEO da Celcoin, ao participar do painel “Finanças embarcadas em escala: de diferencial competitivo a infraestrutura invisível” no Febraban Tech 2026, ao lado de Bruno Lodo, head de Experiência do Usuário na 99Pay; Pedro Fortes, diretor de Estratégia Corporativa e BaaS do Itaú Unibanco; e Rodrigo Hori, vice-presidente de Fundos de Governo da Caixa, com moderação de Adriana de Salles Gomes, do MIT Sloan Management Review.
França citou como exemplo que a maior empresa de sistemas de gestão (ERP) do Brasil adotou o BaaS e está criando contas para suas empresas parceiras e, assim, se transformando em internet banking. “Isso tudo tem como base uma infraestrutura invisível; estão consumindo serviços financeiros sem estar vendo o banco. Esse é o conceito de Banking as a Service”, frisou o CEO da Celcoin.
Ao abrir o debate, Adriana Gomes apontou que, se há poucos anos ter o serviço financeiro dentro de um aplicativo era uma inovação, hoje em dia, está bastante comum. Um fruto da transição que o Open Finance impulsionou quando lançou os Iniciadores de Transação de Pagamento (ITP), que prestam serviço de iniciação de transação de pagamento sem deter em momento algum os fundos transferidos na prestação do serviço.
A 99 é um exemplo de incorporação das finanças embarcadas para ampliar frentes de atuação. “A gente nasce no meio da pandemia, no cenário de transformação digital, com o Pix vindo no fim daquele ano e o início do Open Finance sendo discutido. Naquele momento, nunca foi objetivo se tornar banco, uma financeira com licença como temos hoje. Queríamos resolver uma dor dos clientes e parceiros”, disse Lodo.
A 99Pay recebeu autorização do Banco Central em julho de 2026 para operar como uma Sociedade de Crédito e Financiamento e Investimento (SCFI), mudando de Sociedade de Crédito Direto (SCD) para uma estrutura financeira tradicional. Hoje, a 99Pay contabiliza 28 milhões de usuários com a conta digital no app. “É um número muito grande para se chegar lá sem construir credibilidade e segurança”, assinalou Lodo.
Projetos de BaaS são robustos e de longo prazo
Para todo o ecossistema de BaaS funcionar com a confiança necessária, governança e segurança são elementos-chave. França explicou que a Celcoin trata dessa agenda como diferencial competitivo. “O BaaS, conforme vai tendo mais clientes, ganha uma complexidade grande. Há uns anos tinham muitos players de BaaS; hoje, são poucos”, pontuou o fundador da Celcoin, destacando que reputação e confiança atraem clientes. “Queremos ver mais casos florescendo e, para isso acontecer, temos de gerar confiança e segurança tanto para os clientes dos nossos clientes como para os nossos clientes diretos, porque, no BaaS, só ganhamos dinheiro quando o projeto do nosso cliente dá certo”, detalhou.
Para os players tradicionais, o cenário traz um duplo movimento de desafio e oportunidade. A concorrência acelerada eleva o patamar dos serviços entregues ao mercado. “É inegável que o BaaS, junto com o Open Finance e o Pix, permitiu inovações sem precedentes e dinamismo na oferta de serviços financeiros, que hoje podem ser entregues em diversas jornadas e contextos, e, como consequência, geram melhor oferta para o cliente”, destacou Pedro Fortes, do Itaú Unibanco.
Fortes ressaltou que tais evoluções geraram dinamismo e melhores produtos para os clientes; e têm feito a indústria evoluir de maneira mais acelerada. “Como incumbente, muito disso é oportunidade e muito é concorrência. Quem ganha é o cliente, porque há grande avanço na experiência do usuário e um dinamismo que eleva a barra para todos os players”, defendeu o executivo do Itaú.
Na mesma linha, Rodrigo Hori, da Caixa, destacou a mudança na relação com o cliente, que antes era restrita a uma oferta específica de produtos e, agora, enxerga o cliente e passa a ofertar o que ele quer receber. “Isso possibilita ao B2B se transformar em relação à prestação de serviço ou produtos, tendo dinamismo maior. Você não fala em fidelizar os clientes: é entender e ofertar para ele o que ele precisa e quer consumir. É personalizar e customizar o que ele quer receber e assim ele ficará mais fidelizado”, analisou Hori.
A competição, assinalou Pedro Fortes, do Itaú Unibanco, engrandece o ambiente e é benéfica tanto para o cliente como para a indústria. “Adotamos estratégia para continuar a oferecer a melhor proposta de full banking possível e enxergamos finanças embarcadas como possibilidade”, disse Fortes.
Falando sobre o que uma infraestrutura via API significa em termos de gestão de risco, Marcelo França, da Celcoin, lembrou que as finanças embarcadas existem desde a época do crediário concedido pelo varejista. “O que mudou é que o BaaS consegue viabilizar uma operação desta em um mês. Nós entramos com expertise de gestão de risco, segurança cibernética e somos bastante criteriosos na escolha dos clientes que vão usar nossa plataforma de BaaS; e nos clientes dos nossos clientes que vão usar”, afirmou.